um prémio inesperado?

padilha em berlim

Se o filme não gerou unanimidade no Brasil, a recepção internacional não foi menos controvérsia. Muitas críticas más, não evitou que o filme brasileiro ganhasse o Festival de Berlim.

Tropa de Elite, o filme brasileiro de José Padilha, venceu o Urso de Ouro, prémio máximo do 58.º Festival Internacional de Cinema de Berlim. Foi a maior surpresa de uma noite que viu o júri internacional, presidido pelo realizador Costa-Gavras, devolver ao prêmio a tendência “interventiva” que se diluíra em 2007.

Se Tropa de Elite foi considerado “fascista” por alguns, o filme galardoado com o Urso de Prata (Grande Prémio do Júri), Standard Operating Procedure, de Errol Morris (primeiro documentário a concurso em Berlim nos 58 anos de existência do certame), foi denunciado por outros como “liberal”.

Premiados foram igualmente Haverá Sangue, de Paul Thomas Anderson (único filme com dois galardões – melhor realização e melhor contribuição artística, pela banda sonora de Jonny Greenwood); a actriz inglesa Sally Hawkins (Melhor Actriz em Happy-Go-Lucky); o actor iraniano Reza Najie (Melhor Actor em The Song of Sparrows); e os realizadores Wang Xiaoshuai (Melhor Argumento por In Love We Trust) e Fernando Eimbcke (prémio Alfred Bauer para filme tecnicamente mais inovador por Lake Tahoe).

Os prêmios escolhido pelo júri composto por Costa-Gavras, pelas atrizes Diane Kruger e Shu Qi, pelo montador Walter Murch, pelo cenógrafo Uli Hanisch e pelo produtor Aleksander Rodnianski manteve a habitual tendência de Berlim para evitar obviedades.

Tropa de Elite , primeira longa de ficção do documentarista José Padilha, conta em moldes de filme de acção à americana o quotidiano do grupo de operações especiais anti-droga da polícia do Rio de Janeiro, e foi mal recebido pela crítica presente em Berlim (a “bíblia” da indústria que é a Variety chamou-lhe “um filme de recrutamento fascista”).

O mesmo destino, embora por razões opostas, de Standard Operating Procedure: a maior parte da imprensa apontou o dedo ao respeitadíssimo documentarista Errol Morris por o seu filme sobre os soldados responsáveis pelos abusos de Abu Ghraib não trazer nada de novo ao debate sobre o Iraque, e até por intercalar reconstituições estilizadas dos factos. Nenhum deles era considerado uma aposta para os prémios máximos do festival.

No entanto, se os prémios principais desiludiram os comentadores, ninguém protestou contra a “dobradinha” de Haverá Sangue, com Paul Thomas Anderson sagrado melhor realizador e o prémio de contribuição artística atribuído à banda sonora de Jonny Greenwood, dos Radiohead, a sublinhar o lado barroco, operático, quase visionário do projecto (favorito da crítica para ganhar o Urso de Ouro).

Também razoavelmente unânime foi a atribuição do prémio de melhor actriz à britânica Sally Hawkins pela sua interpretação de uma educadora de infância só aparentemente cabeça-no-ar em Happy-Go-Lucky. Hawkins era, a par de Tilda Swinton, a favorita da imprensa presente, ao contrário do iraniano Reza Najie, cuja vitória em Melhor Actor por The Song of Sparrows apanhou de surpresa os observadores, que esperavam a coroação de Daniel Day-Lewis.

Para além de Haverá Sangue, Happy-Go-Lucky e Standard Operating Procedure, Lake Tahoe, do mexicano Fernando Eimbcke, leva para casa o prémio Alfred Bauer, atribuído em honra do fundador da Berlinale ao filme tecnicamente mais inovador apresentado em concurso.

O prémio para a Melhor Primeira Obra, escolhida por um júri separado de entre os primeiros filmes exibidos nas várias secções oficiais, foi para Asyl – Park and Love Hotel, do japonês Kumasaka Izuru, mostrado no Fórum.

A cerimónia decorreu no Theater am Potsdamer Platz à porta fechada, perante 1600 convidados, com transmissão em simultâneo no canal de televisão ZDF/3sat e no site na Internet do festival.

Para ver vídeo da premiação: Mundafora

Fonte: Público e Reuters

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